Fornecedores de autopeças e serviços se adaptam à nova era da indústria

Fornecedores de autopeças e serviços se adaptam à nova era da indústria
Tecnologia da informação é área cada vez mais relevante na cadeia produtiva

GIOVANNA RIATO, AB
A base de parceiros e fornecedores da cadeia produtiva do setor automotivo se movimenta para atender as necessidades impostas pelo avanço da Indústria 4.0. O tom da nova era para as fábricas de veículos será ditado por maior cooperação entre as empresas de autopeças, concorrentes e montadoras, que terão relacionamento mais próximo do que meras relações comerciais. Outro pilar importante é o aumento do peso da área de tecnologia da informação dentro das companhias. Estas foram as principais conclusões apresentadas em debate durante o Workshop A Indústria 4.0 e a Revolução Automotiva, realizado porAutomotive Business na segunda-feira, 2, em São Paulo.

“Vai surgir o que eu chamo de ‘coopetição’, uma mistura de competição com cooperação”, acredita José Rizzo Hahn, presidente da Pollux Automotion, ao falar da linha cada vez mais tênue que diferencia um concorrente e um parceiro. O executivo aponta que há duas vertentes de Indústria 4.0. A primeira, alemã, tem a automação e o aumento do uso de robôs nas fábricas como base. “É um sistema mais conservador. Muito planejado e organizado que conta com a participação do governo e da academia”, esclarece.

A outra vertente é a vista nos Estados Unidos, onde a revolução da indústria está concentrada em softwares e no empreendedorismo, com grande participação de jovens e startups na oferta de soluções. Para Hahn, o Brasil terá de encontrar um caminho no meio deste contexto. O importante, ele enfatiza, é correr atrás de um formato adequado. “É suicídio deixar de pensar na Indústria 4.0”, avisa, lembrando que as transformações acontecem em ritmo acelerado. O executivo defende que as empresas devem investir em tecnologia da informação ao ampliar seus times com profissionais desta área ou manter internamente especialistas no assunto, muitas vezes terceirizado. 

Besaliel Botelho, presidente da Bosch, concorda. Ele conta que há crescente preocupação com os profissionais que atuarão nessa indústria. “O homem continuará a ter papel essencial, mas com outras competências, mais especializado.” Para o executivo, a inteligência usada em processos produtivos comuns é muito diferente da necessária para a Indústria 4.0.

Hahn lembra que o processo de transformação para o novo modelo deve vir acompanhado de consolidação na cadeia de fornecedores automotivos. No longo prazo, ele aponta que a tendência é por diminuição do número de fornecedores de autopeças, com fusões em busca de soluções mais eficientes e flexíveis para os clientes. A ideia é gerar valor. Outra influência é a chegada de novos players ao mercado. “A Tesla, por exemplo, já vai muito bem nos Estados Unidos”, aponta, destacando o sucesso da jovem fabricante de carros elétricos.

CUSTOMIZAR EM MASSA

De mãos dadas com a indústria 4.0 está a evolução dos produtos e da conectividade dos veículos. Os executivos que participaram do debate fazem coro ao falar de uma tendência que ganha espaço rapidamente: a customização em massa. A ideia é que, com fábricas flexíveis e conectividade, as companhias entendam o desejo dos consumidores e possam oferecer produtos únicos e adequados, mesmo que fabricados em série.

Na prática, esta é uma dinâmica que já funciona bem no mundo digital, com empresas como Google e Facebook, por exemplo. Estas companhias detectam as preferências dos usuários para que cada um deles receba de uma forma as informações e atualizações. No caso das fábricas conectadas e automotizadas, será a rede de dados que comanda pessoas e robôs que recepcionará esses desejos para produzir em uma mesma linha carros com características diferentes.

Wilson Bricio, presidente da ZF América do Sul, destaca que as empresas têm de romper a inércia para que consigam superar a crise atual e se preparar para entregar a inovação que o cliente pede e a solução que os parceiros da cadeia produtiva precisam. “Temos de manter o radar sempre ligado: ver onde está tecnologia e a necessidade e fazer o match. Não podemos ter vergonha de buscar parceiros e pedir ajuda”, explica, dando sinais de que já trabalha dentro da nova lógica da colaboração.

Fonte: Automotive Business

Setor automotivo está em estágio de transformação Evolução tecnológica é rápida e modifica o ecossistema empresarial

indústria automotiva mundial se encontra no limiar de um estágio de transformação profunda, que muda a relação com seus clientes e fornecedores, e por consequência transforma a maneira de desenvolver, fazer e vender seus produtos, hoje vistos na forma de veículos conectados em rede móvel de dados, com introdução de sistemas automáticos e direção autônoma. Ao mesmo tempo em que esse novo ecossistema desafia empresas tradicionais e lentas para promover mudanças em seu modelo de negócios, também significa que existem novas oportunidades de mercado que poderão ser aproveitadas pelas montadoras que adotarem uma postura de liderança nesse processo. Essa foi a principal mensagem de Ricardo Bacellar, diretor de relacionamento com o setor automotivo da consultoria KPMG, em sua palestra durante o Workshop Indústria 4.0 e a Revolução Automotiva, realizado em São Paulo por Automotive Business na segunda-feira, 2. 

Na mesma linha, Paulo Cardamone, diretor da Bright Consulting, avalia que as empresas do setor automotivo precisam “olhar o futuro, para voltar ao presente e tomar decisões para influenciar esse futuro”. Ele aponta que existe uma revolução tecnológica do automóvel em curso que está transformando a indústria rapidamente, com exigências cada vez maiores de aumento de segurança, mais conectividade e redução do consumo e emissões. Isso também muda a relação com os consumidores, cada vez mais conectados, que exigem o aumento das relações virtuais. “Nesse cenário, as montadoras têm de reduzir as margens e manter os preços, mas também podem aproveitar novas fontes de receitas que surgem com o tráfego de dados”, pontua. 

Bacellar alerta que não se trata de exercício de futurologia, mas de realidade atual, à qual a indústria precisa se adaptar rapidamente, sob o risco de ficar para trás e perder clientes e faturamento. “É preciso estar preparado para as transformações e mudar, mas um passo em falso pode custar muito caro. Um exemplo são as empresas de telecomunicações, que não aproveitaram diretamente inovações que surgiram em seu meio, como Facebook ou Whatsapp”, diz o consultor. “Os ciclos de renovação hoje são mais curtos e constantes. É como um smartphone, que fornece o máximo de inovação em todo seu tempo de vida. Os automóveis também precisam seguir essa velocidade evolutiva para conquistar o novo consumidor”, avalia. 

“AGENDA PARA ONTEM”

O consultor da KPMG entende que o carro continuará ainda a ser um bem de consumo aspiracional, mesmo com a queda de interesse dos mais jovens por ter um automóvel e o surgimento de plataformas de compartilhamento de veículos. “O carro compartilhado será um bem básico, enquanto o particular seguirá sendo atrativo desde que ofereça os diferenciais que esses jovens querem, como um ambiente 100% conectado e funcionalidades tecnológicas”, explica. 

Para lidar com esses novos tempos, Bacellar sugere uma “agenda para ontem”, em que os fabricantes de veículos e seus sistemas precisam começar a tomar medidas desde agora para aproveitar as oportunidades de mercado que surgem. “Ficar parado já é ficar atrasado. A indústria automotiva precisa tirar proveito das novas tecnologias liderando as transformações, para não ter perdas como aconteceu com as empresas de telecomunicações”, enfatiza.

Entre os temas dessa agenda urgente, um dos principais é a mudança do modelo de negócio e a rápida adaptação a uma nova relação com os clientes, que hoje tomam decisões de compra em tempo real. É necessário ampliar os canais de relacionamento on-line e criar programas de fidelidade, aos moldes dos programas de milhagem das companhias aéreas, para influenciar e aproveitar os desejos de consumo. “A conectividade dos automóveis está criando um fluxo de dados imenso. Essa informação é ouro em pó que pode criar novas receitas como o fornecimento de serviços, por exemplo”, destaca Bacellar. 

Contudo, para tirar proveito dessa oportunidade, o consultor alerta que as montadoras vão precisar investir mais em análise de dados (data analytics) e também em sistemas de segurança para proteger essas informações. “Haverá possibilidade, por exemplo, de um motorista fazer um check-up médico enquanto dirige, mas é o tipo de informação confidencial que precisa ser protegida. Mas a segurança nunca foi um impeditivo para nenhuma evolução tecnológica, basta aprender com o setor bancário, que conseguiu migrar seu atendimento para a internet com todas as precauções necessárias”, pontua. 

Os processos produtivos e a cadeia de valor da indústria automotiva também passam por transformações. As linhas de produção estarão cada vez mais conectadas e vão fazer carros mais customizados. Alguns fornecedores irão desaparecer ou realinhar seus negócios para uma nova realidade, mas também novos participantes vão surgir, como fornecedores de baterias ou de seguros que poderão ser adquiridos on-line pelos compradores de automóveis. 

BRASIL

Todas essas questões têm endereçamento lento no Brasil, mas também chegam por aqui. “A maioria das evoluções tecnológicas acontece primeiro nos países desenvolvidos, mas hoje isso vem mais rápido aqui e nossa vantagem é que chega em estágio mais aprimorado, nós também vamos tirar proveito disso”, resume Ricardo Bacellar. 

Paulo Cardamone alerta que a indústria automotiva instalada no País segue atrasada em relação à evolução global, porque não resolveu seus problemas de competitividade enquanto tinha fôlego para isso, nos anos de crescimento econômico, e agora em período de recessão será difícil destinar investimentos ao desenvolvimento e modernização do setor. “O Inovar-Auto trouxe pouca inovação, foi insignificante. Deveremos atingir os níveis de consumo e emissões porque foi o único item do programa que tinha metas, prazos e multas. Mesmo assim, ainda ficaremos desfasados em relação ao resto do mundo”, critica. 

Para Cardamone, o mercado brasileiro de veículos deverá continuar no nível máximo de 2 milhões de unidades por pelo menos três anos. “O problema é que esse volume não é suficiente para todas as 30 marcas que estão aqui”, destaca. Ele também avalia que as exportações, embora crescentes, não terão força suficiente para cobrir a enorme ociosidade aberta nas linhas de produção, que já ultrapassa os 50% neste início de 2016. “Câmbio não resolve os problemas de competitividade de ninguém, até porque ninguém sabe por quanto tempo a cotação fica no nível atual. Exportar um veículo não depende só do câmbio favorável. Existe excesso de capacidade produtiva no mundo todo em torno de 30% e até 2020 as montadoras já traçaram seus planos de onde e para onde vão exportar. É preciso ter produto e custo adequado para isso, coisa que o Brasil ainda não tem”, ressalta.
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Fonte: automotive business

Como a indústria 4.0 mudará a sociedade e o consumo

Como a indústria 4.0 mudará a sociedade e o consumo

Victor Caputo
São Paulo – Para Reinaldo Lorenzato, especialista em indústria da Hewlett-Packard Enterprise, as ondas de revolução industriais são um processo de continuidade. A transição atual para a indústria 4.0 não é diferente dos processos anteriores nesse sentido.
As revoluções industriais não são algo que aconteçam somente dentro dasfábricas. Por outro lado, elas foram “um conjunto de políticas governamentais e do uso da tecnologia”.
EXAME.com conversou com Lorenzato sobre a onda atual de revolução da indústria, as fábricas do futuro e como elas irão mudar a sociedade. Veja a seguir.
O que muda com a indústria 4.0?
O que temos visto não é de hoje, mas uma evolução desde a primeira revolução, lá em 1700. Relembrando, a segunda revolução foi com a adoção da energia elétrica e a terceira com o início da automação.
Essa quarta revolução é uma continuidade desse processo. É importante dizer que isso não é algo que aconteça somente dentro das fábricas. As revoluções anteriores foram um conjunto de políticas governamentais de diversos países, junto com a adoção de tecnologias.
Uma mudança importante acontece agora. Antes, a indústria balizava o comportamento da sociedade, ditava tendências. Isso se inverte e são as pessoas e a sociedade que influenciam a indústria agora. Isso fará com que a indústria se reinvente e participe desse novo conjunto – com áreas de serviço, transporte, etc.
O alicerce para essa mudança é a tecnologia. O que eu vejo é que a manufatura tem palavras importantes: colaboração e a integração. Essas mudanças devem vir para conectar o ecossistema industrial aos de consumo, suprimentos,sustentabilidade, entre outros.
Nesse sentido, será uma indústria mais limpa?
Na verdade, já vem sendo uma indústria mais limpa. Não somente a produção mais limpa, mas também o consumo será mais limpo.
Cada produto que é produzido e vai para uma prateleira está estocando recursos. Entre eles matéria prima, energia e mão de obra.
Dependendo do produto, se ele não for usado, pode ser reaproveitado. Por outro lado, energia e mão de obra não podem ser reaproveitados. Por isso é importante o consumo mais consciente.
Fonte: http://exame.abril.com.br/